Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Estando nós num País onde os “jobs” são para os “boys” engravatadinhos e lambe-botas dos senhores do partido, é fácil perceber porque as coisas falharam.

Com uma juventude empreendedora, audaz e espírito revolucionário, Steve Jobs, desde cedo, mostrou-se um “hippie vegetariano” adepto da filosofia zen. Instável emocionalmente e pouco sociável, era obcecado por electrónica e crente que, “para criarmos bem alguma coisa, temos que a perceber”. A universidade, essa, nunca a acabou e, no único ano que por lá andou, frequentou apenas as cadeiras que lhe despertaram interesse.

Em 1976, com Steve Wozniak, Jobs criou a Apple, nome que foi buscar a uma empresa discográfica dos Beatles e a um part-time que tinha num pomar. Recrutou worklovers que acreditavam, como ele, que podiam mudar o mundo, pois “o único meio de se fazer um grande trabalho é amando o que se faz”. Assim, o lema da Apple era “trabalhar 90 horas por semana” e, na verdade, muitos foram os pioneiros que viram os seus casamentos dar em divórcio. Estes “piratas”, como Jobs os tratava, tinham salários baixos e era-lhes pedido o “impossível”. Para aliviar o stress, faziam concursos de berros nos corredores e tinham noites onde a loucura deixava em choque muito boa gente. A paixão, a loucura e a irreverência eram o espírito da “maçã” e, nos recrutamentos, Jobs perguntava coisas como: “Quantas vezes já tomou ácidos” ou “quando é que perdeu a virgindade”, o que revelava o seu lado de difícil trato, mas ele próprio dizia: “O meu trabalho não é ser acessível às pessoas; é torná-las melhores”.

Em 1983, a Apple já era uma das 500 empresas mais ricas do mundo. A precisar de arrumar a casa, Jobs convence John Sculley, que estava na multinacional Pepsi, a ingressar na administração da Apple com o seguinte argumento: “Vais continuar o resto da vida a vender água com açúcar, quando podias fazer algo realmente importante?!?”. Pouco tempo mais tarde, em 1985, é traído pela sua própria administração que o afasta da empresa que criou e só volta, 12 anos depois, para salvar a empresa de uma falência iminente.

A fórmula de sucesso foi a de sempre: “Inovar é aquilo que distingue um líder de um seguidor”. Ganhava um dólar de salário por mês, pois essa era a melhor imagem de confiança que podia dar aos accionistas. Pragmático e de decisões emocionais, dizia que “não há nenhuma razão para não seguir o coração...”. Vivia todos os dias como se fossem o último: “ser o homem mais rico do cemitério não me interessa. Ir para a cama a dizer que fiz algo maravilhoso naquele dia, isso sim é importante para mim...”. Avesso às “regrinhas” sociais, não usava fatos ou gravatas e criou um culto com a sua imagem de sempre: calças de ganga Levi’s, camisola preta e sapatilhas.

Nos anos seguintes, os produtos de sonho Macintosh, iPod, iPhone ou iPad tornaram a Apple a marca mais valiosa do mundo. Dia 5 de Outubro de 2011, Steve Jobs morreu com 56 anos. Em 1985, num memorável discurso na Universidade de Stanford, disse: “A morte é a melhor invenção da vida. Afasta o velho para dar lugar ao novo... Se viveres a vida como se cada dia fosse o último, um dia terás razão”.

Nas apresentações dos produtos Apple terminava sempre com “há só mais uma coisa...”, onde revelava sempre a maior inovação do produto, como se de um pormenor se tratasse. Hoje, também eu termino com “há só mais uma coisa...”: Estando nós num País onde os “jobs” são para os “boys” engravatadinhos e lambe-botas dos senhores do partido, é fácil perceber porque as coisas falharam e vão continuar a falhar enquanto não forem “Jobs” a tomar o lugar dos boys...

 

Paulo Antunes - Notícias da Covilhã



publicado por Po(d/b)re da Sociedade às 10:42 | link do post | comentar | partilhar | favorito

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