Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011


A operação Face Oculta com Rabo de Fora destinava-se, de facto, a
fazer o máximo de ruído possível para desviar as atenções do tenebroso
folhetim BPN.

Ainda hoje visa em parte isso mesmo, apesar de estar um pouco descaída
para robalos e alheiras...

Com a face oculta, valia tudo! Até escutas ilegais ao primeiro
ministro - o que, num estado de Direito, deveria ter resultado no
julgamento dos responsáveis pelas gravações.

Havia gigantescos interesses em jogo e, em particular, o caso BPN prometia

dar completamente cabo do PSD.

Do folhetim BPN ignoram-se ainda hoje numerosos episódios. Aquilo é
uma torrente de lama inesgotável.

Que eu me lembre, o agora falado caso IPO/Duarte Lima, de que Isaltino
também foi uma peça fulcral, não foi sequer abordado durante o
Inquérito Parlamentar sobre o BPN - inquérito a que o PSD se opôs
então com unhas e dentes, como é sabido. A táctica então escolhida
pela quadrilha laranja foi desencadear um inquérito parlamentar
paralelo, para averiguar se Sócrates estava ou não a asfixiar a
comunicação social!! Mais uma vez, uma produção de ruído para abafar o
caso BPN e desviar as atenções.

Mas é interessante examinar como é que o negócio IPO/Lima foi por água abaixo.

Enquanto Lima filho, Raposo e Cia. criavam um fundo com dezenas de
milhões amigavelmente cedidos pelo BPN de Oliveira e Costa, Isaltino
pressionava o governo para deslocar o IPO para uns terrenos de
Barcarena, concelho de Oeiras. Isaltino comprometia-se a comprar os
terrenos (aos Limas e Raposo, como sabemos hoje) com dinheiro da
autarquia e a "cedê-los" generosamente ao Estado para lá construir o
IPO. Fazia muito jeito que fosse o município de Oeiras a comprar os
terrenos e não o ministério da Saúde, porque assim o preço podia ser
ajustado entre os amigos vendedores e compradores, quiçá com umas
comissõezinhas a transferir para a Suíça.

Duarte Lima tinha sido vogal da comissão de ética (!!!) do IPO entre
2002 e 2005, estava bem dentro de todo os assuntos e tinha óptimas
relações para propiciar o negócio. Além disso, construiu a imagem de
homem que venceu o cancro, história lacrimosa com que apagava misérias
anteriores. O filho e o Vítor Raposo eram os escolhidos para dar o
nome, pois ao Lima pai não convinha que o seu nome figurasse como
interessado no negócio.

Em Junho de 2007 Isaltino dizia ainda que as negociações para a compra
dos terrenos em causa estavam "em fase de conclusão" (só não disse
nunca foi a quem os ia comprar, claro). E pressionava o ministro da
Saúde: "Se se der uma mudança de opinião do governo, o cancelamento do
projecto não será da responsabilidade do município de Oeiras."

Como assim, "mudança de opinião do governo"?

Na verdade, Correia de Campos apenas dissera à Lusa que o governo
encarava a transferência do IPO para fora da Praça de Espanha e que
estava a procurar um terreno, em Lisboa ou fora da cidade, para esse
efeito. Nenhuma decisão tinha sido tomada, nem nunca o seria antes das
eleições para a Câmara de Lisboa, que iam realizar-se pouco depois, em
Julho de 2007.

No decorrer do ano de 2007, porém, a Câmara de Lisboa, cuja
presidência foi conquistada por António Costa, anunciou que ia
disponibilizar um terreno municipal para a construção do novo IPO no
Parque da Bela Vista Sul, em Chelas, Lisboa. Foi assim que se lixou o
projecto Lima-Isaltino: o ministro Correia de Campos não cedeu às
pressões de Isaltino e a nova Câmara de Lisboa pretendia que o IPO se
mantivesse em Lisboa. Com Santana à frente da autarquia e um ministro
da Saúde do PSD teria tudo sido provavelmente muito diferente. E os
Limas e Raposos não teriam hoje as chatices que se sabe. E Duarte Lima
até talvez já tivesse uma estátua no Parque dos Poetas do amigo
Isaltino.

Sabemos como, alguns meses depois deste desfecho, Correia de Campos
foi atacado por Cavaco no discurso presidencial de Ano Novo, em 1 de
janeiro de 2008.
Desgostado com as críticas malignas do traiçoeiro
Presidente, Correia de Campos pediu a sua demissão ainda nesse mês.
Não sabemos nem podemos saber o que terá levado o PR a visar dessa
maneira um ministro do governo Sócrates, por sinal um dos mais
competentes.
Que Cavaco queria a pele de Correia de Campos, foi bem
visível. Por causa do fracasso do projecto do IPO/Oeiras e dos
prejuízos causados ao clan Lima e à mafia laranja? É bem possível!



publicado por Po(d/b)re da Sociedade às 10:22 | link do post | comentar | partilhar | favorito

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